O Open Insurance foi apresentado ao mercado brasileiro como um divisor de águas. Para o corretor, veio acompanhado de um medo específico: o de virar peça dispensável numa cadeia em que o cliente leva os próprios dados para onde quiser.

Em agosto de 2026, o que os dados disponíveis mostram é mais modesto e mais interessante que a promessa e que o medo.

Até abril de 2026, apenas duas sociedades operadoras haviam sido autorizadas pela Susep. O sistema existe, está em construção e não produziu, até aqui, o deslocamento que se anunciou.

O que o Open Insurance é

O Sistema de Seguros Aberto permite que o consumidor autorize o compartilhamento dos seus dados de seguros entre instituições participantes.

A lógica é a mesma do Open Finance: os dados pertencem ao titular, não à instituição que os detém, e ele pode determinar para quem eles vão.

A figura que operacionaliza o compartilhamento no lado da distribuição é a sociedade operadora de serviços de compartilhamento de dados, conhecida pela sigla SPOC. É a entidade autorizada a receber e tratar os dados compartilhados.

Este texto integra o panorama do mercado de seguro de vida, com números, regulação e movimentos do setor.

Os termos que este texto usa

SPOC é a sigla de sociedade participante do Open Insurance responsável pela iniciação de serviços. É por ela que passa o compartilhamento de dados no sistema.

Controlador, na linguagem da Lei nº 13.709/2018, a LGPD,, é quem decide a finalidade e os meios do tratamento de dados. O art. 5º, VI, é expresso, e no caso da sua carteira esse alguém é você.

O estado real em 2026

Três fatos delimitam a situação.

Fato O que mostra
Duas SPOCs autorizadas Até abril de 2026, apenas Guru Spoc e Open Power haviam recebido autorização da Susep, com expectativa de novas aprovações.
O regulador está revendo o modelo Em março de 2026, a Susep abriu coleta de contribuições na plataforma Brasil Participativo para avaliar e possivelmente aprimorar aspectos estruturais, operacionais e regulatórios do sistema. Há grupos de trabalho revendo escopo, jornadas de consentimento e o papel das SPOCs.
O mercado revisou as expectativas Estudo da Capgemini divulgado em novembro de 2025 apontou 2026 como ano decisivo para destravar o sistema, condicionado ao avanço para um modelo mais racional e interoperável, alinhado ao Open Finance.

Um levantamento setorial publicado em 2026 chegou a apontar seis desafios que empurrariam o avanço efetivo para 2028.

Os seis entraves apontados

O diagnóstico do setor sobre o que trava o modelo é razoavelmente convergente.

Entrave O que significa
Compreensão da sociedade O consumidor não sabe o que é, e não pede o que não conhece.
Qualidade e governança de dados Compartilhar dado ruim não produz valor.
Lacunas tecnológicas Integração incompleta entre participantes.
Baixa participação do corretor É o entrave que interessa diretamente a este texto.
Modelo de consentimento inadequado à realidade do seguro A jornada de autorização foi desenhada com premissas que não descrevem bem o produto.

Custos elevados, sobretudo para as empresas.

Por que o corretor está de fora

O quarto entrave tem uma causa concreta e pouco discutida: a exigência de capital mínimo de R$ 1 milhão para operar como SPOC, apontada por participantes do mercado e sem dispositivo localizado nesta apuração.

Para a corretora de pequeno porte, que é a maioria do mercado, esse patamar torna a figura inacessível. O resultado é que o profissional que teria mais a ganhar com a portabilidade de dados ficou fora da estrutura que a viabiliza.

A leitura que circula no setor é que o corretor seria o grande multiplicador do sistema. Se ele não entra, o sistema não se multiplica.

Há aqui uma ironia relevante para quem teme desintermediação: o Open Insurance não avançou o suficiente para desintermediar ninguém, em parte porque o intermediário ficou de fora.

O que muda para quem vende seguro de vida

Separando o que já produz efeito do que ainda é expectativa.

O que já mudou

Pouca coisa, na prática diária. Com duas SPOCs autorizadas e o modelo em revisão pelo regulador, o corretor de vida que não acompanhou o tema não perdeu oportunidade concreta até aqui.

A conversa sobre dados do cliente ficou mais madura. Independentemente do sistema, a noção de que os dados pertencem ao titular se consolidou — e ela tem efeito sobre a forma como o profissional guarda e trata a própria base.

O que muda se o sistema destravar

A informação sobre coberturas existentes fica acessível com autorização. Hoje, descobrir o que um cliente já tem contratado depende de ele lembrar e de ele buscar as apólices. Com compartilhamento funcionando, essa etapa encurta.

Para o corretor de vida, esse é o ponto de maior valor potencial, e ele é contraintuitivo. A dificuldade da profissão não é encontrar quem não tem nada — é descobrir o que a pessoa tem, o quanto tem e se aquilo protege o que ela pensa que protege.

A comparação entre produtos fica mais simples. O que favorece quem sabe explicar diferença técnica e desfavorece quem vende por relacionamento apenas.

A análise de lacuna de proteção deixa de depender de declaração. Cliente que não lembra da cobertura da empresa é um problema recorrente. Dado compartilhado resolve isso.

O que não muda

Vale ser direto, porque é onde está o medo.

O que não muda Por quê
A decisão de proteger a família não é uma decisão de dados Nenhum sistema de compartilhamento produz a conversa sobre o que acontece com os filhos, com a empresa e com o financiamento. Essa conversa é o produto do profissional de vida.
O dimensionamento continua sendo julgamento Saber que alguém tem R$ 300 mil de cobertura não diz se R$ 300 mil bastam. Isso depende de renda, dependentes, prazo, dívida e patrimônio — e da capacidade de fazer as perguntas certas.
A subscrição continua existindo Declaração de saúde, avaliação de risco e aceitação não são afetadas por portabilidade de dados.
A objeção não é informacional O cliente que diz "vou pensar" não está esperando um dado. As razões pelas quais uma venda de vida não fecha raramente são resolvidas com mais informação disponível.

A leitura provável

Quem descreve o Open Insurance como ameaça à intermediação parte de uma premissa: a de que o corretor existe porque detém informação.

Se essa premissa fosse verdadeira, o risco seria real. Mas ela não descreve bem a venda de seguro de vida.

Em produtos simples, comparáveis e de decisão rápida, acesso a dados desloca intermediário. É o que já aconteceu, sem Open Insurance nenhum, em segmentos de contratação direta.

Em vida, o obstáculo não é acesso à informação. É que a maior parte das pessoas não sabe que precisa do produto — 64% dos brasileiros adultos declaram não conhecer os benefícios de uma apólice, segundo a pesquisa Fenaprevi/Datafolha de 2024. Um sistema que facilita o compartilhamento de dados de quem já tem seguro não alcança quem nunca teve a conversa.

A leitura mais provável é que o Open Insurance, quando destravar, seja ferramenta de diagnóstico para o profissional, e não substituto dele.

O que fazer agora

Três posturas defensáveis, considerando o estágio atual.

Acompanhar sem investir. O sistema está em revisão regulatória e o modelo pode mudar. Decisão estrutural tomada agora corre risco de ficar obsoleta.

Organizar a própria base. A capacidade de aproveitar dado compartilhado depende de já ter organizado o dado próprio. Quem não sabe o que a própria carteira contém não extrai valor de dado externo.

Desenvolver o que o sistema não entrega. Descoberta, dimensionamento e condução de conversa difícil. São as competências que nenhuma versão do Open Insurance substitui, e são as que distinguem o profissional de vida.

A pergunta que orienta a decisão não é se o Open Insurance vai chegar. É o que restará de valioso quando ele chegar — e a resposta continua sendo o que já era: saber perguntar, saber dimensionar e saber explicar.

Perguntas frequentes

Quantas SPOCs estão autorizadas no Open Insurance?

Até abril de 2026, apenas duas sociedades operadoras haviam sido autorizadas pela Susep — Guru Spoc e Open Power.

O Open Insurance ameaça o corretor de seguros?

Não até aqui. O sistema segue em revisão regulatória e não produziu o deslocamento anunciado. Um dos entraves apontados por participantes do mercado é justamente a baixa participação do corretor, barrada pela exigência de capital mínimo de R$ 1 milhão para operar como SPOC.

O que o Open Insurance não resolve na venda de seguro de vida?

O dimensionamento do capital, a subscrição e a conversa sobre o que acontece com a família. Compartilhamento de dados alcança quem já tem apólice, e 64% dos brasileiros adultos declaram não conhecer os benefícios do produto (Fenaprevi/Datafolha, 2024).


Fontes
  • Susep, coleta de contribuições sobre o Open Insurance na plataforma Brasil Participativo, março de 2026, para avaliação de aspectos estruturais, operacionais e regulatórios. Susep ↗
  • Autorização de SPOCs: até abril de 2026, duas sociedades autorizadas pela Susep — Guru Spoc e Open Power
  • Capgemini, estudo divulgado em novembro de 2025, apontando 2026 como ano decisivo para destravar o Open Insurance. Susep ↗
  • Levantamento setorial publicado em 2026 sobre os seis entraves ao avanço do modelo e o horizonte de 2028
  • Exigência de capital mínimo de R$ 1 milhão para SPOC, apontada no setor como barreira à participação de corretoras de pequeno porte
  • Fenaprevi/Datafolha, pesquisa "Percepção dos Brasileiros Sobre Proteção e Planejamento", edição de 2024: 64% desconhecem os benefícios de uma apólice de vida. FenaPrevi ↗
  • Susep — Sistema de Estatísticas (SES) — dados do setor supervisionado