A maior parte dos painéis de corretor mostra a informação errada. Números grandes, bonitos e passivos: total de clientes, prêmio acumulado, produção do ano.
São dados de relatório. Servem para saber como foi, não para decidir o que fazer.
Uma tela inicial útil responde a uma pergunta diferente: o que exige a minha atenção hoje? Esse é o critério que separa dashboard de relatório, e é o que organiza este texto.
O critério: todo indicador precisa gerar uma ação
Antes de escolher os números, vale um filtro. Para cada indicador candidato, faça uma pergunta:
Se este número piorar, o que eu faço amanhã de manhã?
Se a resposta for "vender mais", o indicador é de relatório. Se for uma ação específica com nome e destinatário — ligar para estes seis clientes, revisar estas quatro apólices — o indicador pertence à tela inicial.
Aplicando esse filtro, a maior parte dos painéis de mercado perde metade dos seus quadros.
Este texto integra o guia de CRM para corretor de seguro de vida, sobre o que a categoria precisa entregar.
Os termos que este texto usa
Taxa de conversão de uma etapa é quantos avançam dividido por quantos entraram nela. A conversão total do funil é o produto das taxas, não a média.
Persistência é a proporção de apólices que continuam ativas depois de um período determinado. É o indicador que descreve retenção do lado da seguradora.
Os quatro blocos de uma tela inicial de corretor de vida
Um painel útil tem uma estrutura, não uma coleção. Quatro blocos, nesta ordem de prioridade.
Bloco 1 — O que está em risco agora
É o único bloco que justifica atenção diária. Ele mostra dinheiro que já é seu e pode deixar de ser.
Apólices com prêmio em atraso, com os dias de atraso. É o indicador antecedente mais forte de cancelamento. Um número absoluto não basta: a quantidade de dias define a urgência de cada caso.
Comissão em risco. O valor de comissão associado às apólices em atraso. No exemplo acima, transforma "sete apólices em atraso" em "R$ 3.400 em risco", que é uma informação com peso diferente.
Apólices canceladas no período. Serve para calibrar se o bloco 1 está sendo trabalhado ou apenas observado.
Bloco 2 — O que exige contato
É a fila de trabalho da semana. Cada item aqui é uma conversa a ter.
| Indicador | O que mostra |
|---|---|
| Aniversários de apólice próximos | A data em que a revisão faz sentido. |
| Aniversários de clientes | Relacionamento, não revisão. Os dois servem a coisas diferentes. |
| Coberturas próximas do fim de vigência | É a janela em que a renovação ainda pode ser conduzida em vez de sofrida. |
| Tarefas em aberto com data de próximo contato | O que você mesmo se comprometeu a fazer. |
Bloco 3 — Onde há lacuna de proteção
É o bloco que gera venda sem prospecção, e o mais ignorado nos painéis genéricos.
São filtros da carteira que apontam clientes cuja proteção está incompleta ou desatualizada. Cliente sem determinada cobertura, apólice cuja declaração de saúde está antiga, cobertura que se aproxima do término sem substituição prevista.
Cada linha desse bloco é um cliente que já confia em você e tem um motivo técnico de conversa.
Bloco 4 — Como está a receita
Aqui entram os números financeiros, e eles precisam de três cortes para serem úteis.
Total a receber no mês corrente.
Primeiro ano separado de renovação. Somados, escondem a informação que interessa: se a carteira sustenta o mês ou se o mês depende de venda nova.
Projeção do mês seguinte. Comissão de renovação é previsível. Projetar transforma receita em algo planejável.
Por que esses indicadores, e não outros
A escolha não é arbitrária. Segundo a Susep, em julho de 2026, no primeiro trimestre de 2026 os seguros de pessoas somaram R$ 20,3 bilhões, alta de 10%, com o seguro de vida crescendo 11,63% em termos nominais. Numa carteira em expansão, o que se perde por falta de acompanhamento cresce na mesma proporção.
E há a dimensão de conformidade. O art. 21 da Resolução CNSP nº 493/2026 prevê restituição proporcional da comissão em caso de cancelamento de apólice ou devolução de prêmio. Prêmio em atraso, portanto, não é apenas risco comercial — é passivo em formação.
As referências externas do painel
Vale ancorar a meta em como o mercado se moveu, e não só no ano anterior da sua carteira.
| Indicador | Janeiro a abril de 2026 |
|---|---|
| Setor supervisionado | R$ 139,59 bi · −0,80% nominal |
| Danos e pessoas, excluído o VGBL | R$ 74,80 bi · +6,13% nominal |
| Seguro de vida | +10,69% nominal · +6,24% real |
| Seguro auto | R$ 20,26 bi · +6,55% nominal · +2,24% real |
| Indenizações, resgates e benefícios pagos | R$ 84,31 bi |
— Boletim Susep de abril de 2026, publicado em 11 de junho de 2026. No primeiro trimestre, o vida havia crescido 11,63% nominal e 6,58% real. A CNseg projeta +11,7% para vida em 2026, dentro de um mercado que deve arrecadar R$ 808 bilhões.
Como usar. O setor supervisionado está em queda nominal — e o vida cresce mais de 10% dentro dele. Uma meta de crescimento abaixo de 6,24% é, em termos reais, uma meta de encolher participação num segmento que está entre os poucos que avançam (Susep, jan–abr 2026).
O que não deveria estar na tela inicial
Quatro números que aparecem em quase todo painel e não passam no filtro da ação.
| Indicador | Por que sai |
|---|---|
| Total de clientes | Não muda de um dia para o outro e não sugere nada. |
| Prêmio acumulado histórico | É orgulho, não gestão. |
| Gráfico de evolução mensal | Útil na revisão trimestral. Na tela diária, ocupa espaço nobre. |
| Ranking ou comparação com outros corretores | Motiva alguns, paralisa outros, e não indica ação nenhuma. |
Nada disso é inútil. É informação de outra tela, com outra frequência de consulta.
O erro de projeto mais comum: a tela sem período
Um painel que soma tudo desde sempre responde à pergunta errada.
Trinta apólices canceladas ao longo de cinco anos é um dado. Trinta apólices canceladas no último trimestre é um problema. O mesmo número, com significados opostos.
Toda tela inicial precisa de um recorte de período aplicável aos indicadores de fluxo — vendas, cancelamentos, rejeições. Os indicadores de estoque, como apólices vigentes e clientes ativos, respondem à data de referência, não ao período.
Confundir os dois produz painéis que parecem certos e informam errado.
Da tela para a lista: o detalhe que define se o painel serve
Este é o ponto que mais separa painel útil de painel decorativo.
Um número sozinho não gera ação. "Sete apólices em atraso" não diz para quem ligar.
Todo indicador de ação precisa abrir a lista dos casos que o compõem. Sem esse caminho, o corretor vê o problema e não tem como agir sobre ele — e um problema visível sem caminho de ação vira ruído que se aprende a ignorar.
O teste é simples. Clique no número. Se aparecer a lista com nome, apólice e telefone, o painel funciona. Se não aparecer nada, você tem um relatório com cara de dashboard.
Como é no Insurance Pro
A tela inicial do sistema segue essa estrutura, e vale ser específico sobre o que ela mostra.
| Etapa | O que fazer |
|---|---|
| Risco e receita | Apólices em atraso com dias de atraso, comissão em risco, total a receber no mês, primeiro ano separado de renovação e projeção do mês seguinte. |
| Fila de contato | Aniversários de clientes nos próximos cinco dias, aniversários de apólice nos próximos sete, coberturas próximas do fim, tarefas em aberto. |
| Lacunas | Clientes sem determinada cobertura e apólices com declaração de saúde antiga, cada um como uma lista de nomes. |
| Estado da carteira | Clientes ativos, apólices vigentes, prêmio anualizado em vigor, canceladas, rejeitadas e pendentes, com filtro de período aplicado aos indicadores de fluxo. |
Os indicadores de ação abrem a lista dos casos. É a diferença entre saber que existem sete apólices em atraso e ter os sete nomes com o telefone ao lado.
O que a tela não faz. Ela não dispara nada sozinha. Não há automação que ligue, envie mensagem ou crie tarefa a partir do indicador. O painel organiza o trabalho e mostra a ordem de prioridade — a execução é sua. Preferimos dizer isso do que deixar você descobrir depois de assinar.
Como avaliar o painel que você usa hoje
Cinco perguntas. Leve-as para qualquer demonstração de sistema.
Consigo ver quem está em atraso, com o valor de comissão associado?
Consigo clicar em um número e chegar na lista de nomes?
A receita aparece separada entre primeiro ano e renovação?
Existe filtro de período, e ele se aplica apenas aos indicadores de fluxo?
Quantos quadros da tela geram uma ação específica, e quantos só informam?
Se a resposta da última for "dois de doze", o painel é um relatório. Isso não o torna inútil — torna-o inadequado para ser a primeira tela do seu dia.
Perguntas frequentes
Quais indicadores um corretor de seguros deve acompanhar?
Os que geram ação. O filtro é a pergunta: se este número piorar, o que eu faço amanhã de manhã? Se a resposta for "vender mais", o indicador é de relatório, não de painel.
O que não deveria estar no dashboard do corretor?
Total de clientes, prêmio acumulado histórico, gráfico de evolução mensal e ranking. Nenhum deles sugere ação, e todos ocupam espaço nobre da tela.
Como saber se um painel é útil?
Clicando no número. Se aparecer a lista com nome e telefone dos casos que o compõem, o painel funciona. Se não aparecer nada, é um relatório com aparência de dashboard.
Fontes
- Indicadores, blocos e comportamento da tela inicial descritos conferidos no código do Insurance Pro (
lib/dashboard.tseapp/page.tsx) - Os exemplos numéricos usados para ilustrar leitura de indicadores são ilustrativos
- Resolução CNSP nº 493, de 17 de julho de 2026 — texto integral no DOU de 21/07/2026
- Susep — Sistema de Estatísticas (SES) — dados do setor supervisionado
- CNseg — projeções do setor para 2026 — revisão de 15/04/2026